O Ministério da
Educação (MEC) decidiu não avaliar este ano o nível de alfabetização das crianças
brasileiras. Resultados anteriores têm mostrado que mais da metade dos alunos
de 8 anos não consegue localizar informações em textos de literatura infantil
ou escrever corretamente palavras como lousa e professor.
Por causa
do desempenho preocupante
das crianças, a gestão de Michel Temer anunciou em 2018 que passaria
a checar a alfabetização mais cedo, aos 7 anos de idade (2o ano
do ensino fundamental). A prova deveria ser feita no mês de outubro deste ano.
No
entanto, portaria publicada nesta segunda-feira pelo Instituto Nacional de
Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC responsável pelos exames, exclui as
crianças de 7 anos das provas nacionais. Elas também não farão os exames de
Matemática.
Estão
mantidas as avaliações para os estudantes do fim dos ciclos do ensino
fundamental, ou seja, 5o ano e 9o ano, e do
ensino médio, no 3o ano.
As provas
fazem parte do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que existe desde
os anos 90 no Brasil e aplica testes de Português e Matemática. São a partir
dos resultados do Saeb que o MEC calcula o Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que se tornou o grande
indicador de qualidade do ensino no País.
A
alfabetização é considerada o momento mais importante da educação de uma
criança. Especialistas enfatizam que um aluno alfabetizado de maneira
insuficiente dificilmente terá condição de continuar aprendendo na escola.
Sem
avaliação neste ano, perde-se a possibilidade de comparação para saber se as
crianças estão melhorando ou piorando. A alfabetização havia sido medida em
2014 e 2016 e agora não há informações sobre quando voltará a ser avaliada. A
portaria também não informa as razões da mudança.
Uma
política nacional de alfabetização para melhorar os resultados no País foi
colocada entre as prioridades para os 100 dias do governo de Jair Bolsonaro. Na
semana passada, o Estado revelou a minuta do decreto que
deve implementar a medida. O texto foi criticado por educadores por enfatizar
um método de alfabetização, o fônico, considerado antiquado e muito tecnicista.
O decreto também dizia que deveria ser priorizada a alfabetização aos 6 anos,
ou seja, mais cedo ainda, no 1o ano.
Já a Base
Nacional Comum Curricular (BNCC), que reúne os objetivos de aprendizagem para
todos os anos escolares e que foi aprovada em 2017, diz que a alfabetização
deve estar concluída ao fim do 2o ano. A BNCC também não
prioriza nenhum método para que se ensine a ler e a escrever. Escolas particulares
de elite em São Paulo, por exemplo, mesclam os modelos
existentes para garantir a aprendizagem das crianças.
Outra
mudança foi com relação à prova para a educação infantil (0 a 5 anos). Pela
primeira vez na história do País, havia a previsão de
todas as creches e pré-escolaspassarem por avaliações. As crianças
não fariam testes, mas todos os professores e responsáveis pelas escolas
responderiam a questionários sobre estrutura, projeto pedagógico, materiais.
Agora, a portaria prevê que apenas uma amostra seja avaliada, “em caráter de
estudo-piloto”.
Pesquisas
no mundo inteiro têm mostrado que uma educação infantil de qualidade é crucial
para o desenvolvimento das crianças.
Pela
primeira vez também todos os alunos de 9o ano fariam provas
Ciências da Natureza e Ciências Humanas. O Inep agora decidiu que só uma
amostra, que ainda será selecionada, passará pelos novos exames.
A opção
pela amostragem em vez de avaliar todos os alunos indica uma intenção de
economizar recursos, mas especialistas questionam se haverá influência nos
resultados. Na educação infantil, por exemplo, como nunca foi avaliada, existe
a dificuldade de se calcular uma boa amostra já que não se conhece o universo.
O Saeb foi
uma das decisões que atrasada por causa das
disputas internas no MEC e o enfraquecimento do atual ministro Ricardo Vélez
Rodríguez. A portaria precisava ser publicada para que outros
procedimentos da prova prosseguissem.
No dia 26
de dezembro do ano passado, a gestão do MEC no governo Temer havia publicado
uma portaria justamente com as regras para o Saeb de 2019. O documento de agora
substitui o anterior.
Renata
Cafardo, Estadão



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