O câncer
pode surgir em qualquer parte do corpo, sendo que alguns órgãos são mais
afetados do que outros e há tipos mais comuns em homens e mulheres. O
diagnóstico da doença é sempre muito difícil, mas algumas mudanças de hábitos
podem, em alguns casos, evitar a doença.
Já é
consenso entre médicos e na literatura científica que um estilo de vida não
saudável estaria associado ao aumento no risco de 20 tipos de câncer. Entre
eles estão pulmão, cólon e reto, útero, mama e próstata.
Uma
pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(FMUSP) e Universidade de Harvard (EUA), publicada em fevereiro na revista Cancer Epidemiology, estimou a proporção de casos e de
mortes por câncer que poderiam ser evitados pela eliminação ou redução de
fatores de risco no estilo de vida dos brasileiros.
Tabagismo,
consumo de álcool, excesso de peso, alimentação não saudável e falta de
atividade física seriam os cinco principais motivos que levam as pessoas a
serem mais propensas a desenvolver algum câncer.
Estimativas
do Instituto Nacional de Câncer (Inca), de 2018, apontam que o câncer de pele
não melanoma é o mais comum na população. O tumor mais presente no Brasil
corresponde a cerca de 30% de todos os tumores malignos registrados no País.
Entre os
homens, os tipos de câncer mais comuns são próstata (31,7%), traqueia, brônquio
e pulmão (8,7%) e colorretal (8,1%). Nas mulheres os tumores mais comuns são de
mama (29,5%), colorretal (9,4%) e colo do útero (8,1%).
Confira
abaixo como esses tipos de câncer estão relacionados com hábitos de vida e como
poderiam ser evitados:
Câncer
de pele
A
exposição solar inadequada é o principal fator que leva ao surgimento do câncer
de pele. Entre as outras causas estão a predisposição genética, a exposição
constante a raios X (como radiografias) e a substâncias químicas (como arsênio
e outros produtos tóxicos) e ao vírus HPV.
Karla
Assed, integrante da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da American Academy
of Dermatolog, explica quais medidas podem ser adotadas no dia a dia para
prevenir o câncer de pele. “Evitar exposição solar entre 10h e 16h, usar
constantemente protetores solares químicos e físicos (como chapéus e viseiras),
óculos escuros e dar preferência a roupas com proteção UV”, diz.
Outra
prática que a especialista orienta é adotar o critério ABCDE de identificação
dos possíveis sinais na pele. Deve-se observar a assimetria (se uma metade da
pinta está semelhante à outra metade), borda (caso os contornos da lesão
estejam irregulares, dentados, chanfrados ou com sulcos, é recomendável
procurar um especialista), cor (observar se a coloração é a mesma em toda a pinta
e se não há diferentes tons de marrom, preto e, às vezes, azul, vermelho e
branco), diâmetro (a pinta não pode ter mais de meio centímetro – embora
médicos diagnostiquem melanomas bem menores) e evolução (que é um critério
melhor avaliado pelos especialistas, que observam a profundidade da lesão e se
há metástase).
Câncer
colorretal
Terceiro
mais frequente em homens e o segundo entre as mulheres, o câncer colorretal é
uma doença multifatorial, afirma Ricardo Carvalho, titular do departamento de
tumores gastrointestinais da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Embora haja
fatores genéticos, que são raros, as causas são geralmente externas.
“Obesidade,
dietas com alta ingestão de carne vermelha, processados, industrializados e
alimentação pobre em frutas, vegetais e fibras”, enumera o médico. Tabagismo e
alcoolismo também são causas possíveis.
Assim, uma
dieta com produtos saudáveis, naturais, é o mais indicado para prevenir o
câncer colorretal. A doença é tratável e frequentemente curável, mesmo nos
casos de metástase, dependendo da extensão.
Câncer
de traqueia, brônquio e pulmão
Segundo
colocado entre os tumores mais frequentes nos homens, o câncer de pulmão tem
relação muito forte com exposições ambientais e ocupacionais a carcinógenos,
diz Gustavo Prado, coordenador da Comissão Científica de Câncer de Pulmão da
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).
“A mais
conhecida delas é o tabagismo, já há muito tempo não mais tratado como um
‘hábito de vida’, mas uma doença que acomete cerca de 1,2 bilhão de pessoas no
mundo e responsável por cerca de 75% e 85% de todos os casos de câncer de
pulmão”, explica o médico.
Outros
fatores que podem desencadear esse tipo de câncer é a exposição à poluição
ambiental e atividades de trabalho que envolvam contato com substâncias
cancerígenas. Para que seja prevenido, é importante que a pessoa adote uma
alimentação saudável, mantenha o peso e pratique atividades físicas
regularmente, indica Prado. A alimentação deve incluir produtos de origem
vegetal, não os processados e ultraprocessados produzidos a partir de proteínas
animais.
“É
importantíssimo destacar que o diagnóstico do câncer não deve desencorajar uma
modificação de hábitos de vida pela crença de que não haveria benefícios após a
percepção de um ‘dano instalado’. Parar de fumar, cuidar da alimentação e do
sono, praticar atividades físicas são algumas das medidas que não apenas
reduzem os riscos de complicações dos tratamentos como também previnem o
desenvolvimento ou progressão de outras doenças”, alerta Prado.
Câncer
de próstata
Segundo o
urologista Mauricio Rubinstein, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia
Minimamente Invasiva e Robótica (Sobracil-RJ), já foi descoberto que, na grande
maioria dos cânceres, uma dieta rica em gordura saturada pode aumentar a
incidência da doença. No caso da próstata, isso também é válido.
Homens que
se expõem a produtos químicos tóxicos, como arsênio, produtos de petróleo,
fuligem e dioxinas têm risco aumentado de diagnóstico de câncer de próstata.
“Essas substâncias ajudam a promover mutações nas células da próstata,
facilitando o aparecimento de um caso de câncer”, explica.
Para
prevenir o câncer de próstata, o médico incentiva mudanças de hábitos
alimentares, com dieta rica em frutas, verduras, legumes, grãos e cereais
integrais. Isso deve estar aliado a uma ingestão menor de gordura, “pois
diversos estudos revelaram um maior risco de câncer de próstata em homens com
sobrepeso”. Praticar exercícios físicos, pelo menos quatro vezes por semana
(tempo mínimo de 30 minutos), diminuir o consumo de álcool e não fumar são
algumas das recomendações importantes também.
Câncer
de mama
A idade é
o fator de risco mais importante para o câncer de mama. Mas estilos de vida que
levam à obesidade, ao sedentarismo e mulheres que nunca engravidaram ou as que
deixaram para engravidar mais tarde, acima de 30 anos, também são um risco de
desenvolver a doença, segundo a ginecologista Maria Cecília Erthal, diretora
médica do Vida – Centro de Fertilidade. O consumo de bebidas alcoólicas também
aumenta o risco, assim como a exposição a radiações ionizantes, como a
radioterapia.
Outra
causa possível, de acordo com a médica, é o uso de medicações hormonais, como a
pílula anticoncepcional e a terapia de reposição na menopausa por um período
superior a cinco anos. Ela afirma que mudanças de hábitos influenciam de forma
positiva, não só diminuindo o risco da doença como melhorando a evolução dos
casos já diagnosticados.
“A perda
de peso e a introdução da atividade física são muito importantes,
principalmente para as pacientes que já têm um risco aumentado pelo seu histórico
familiar (parentes com câncer de ovário ou de mama) ou uma predisposição
genética. A gravidez e a amamentação são fatores protetores contra o câncer de
mama”, diz a ginecologista.
Câncer
de colo do útero
Maria
Cecília diz que o fator de risco mais importante para o câncer de colo de útero
é a infecção pelo papiloma vírus humano, que é transmitido pelo ato sexual.
“Quanto maior o número de parceiros, maior a chance de contrair essa infecção”,
afirma a especialista sobre fatores comportamentais. No entanto, sabe-se que o
uso de preservativo é a única forma de prevenir qualquer infecção sexualmente
transmissível. A infecção pela clamídia, bactéria também transmitida pelo ato
sexual, aumenta o risco da doença.
No quesito
hábitos de vida, ela afirma que tanto a obesidade como tabagismo aumentam o
risco do câncer de colo de útero. “A principal maneira de prevenir o câncer de
colo do útero é detectando tanto infecções como lesões pré-malignas por meio da
realização do exame de papanicolau, conhecido como preventivo do colo do útero,
que deve ser realizado uma vez ao ano”, orienta a médica.
A vacina
contra o HPV também é uma forma importante de prevenção do câncer de colo do
útero e deve ser aplicada em meninas de nove a 14 anos e meninos de 11 a 14
anos, preferentemente antes da primeira relação sexual. A vacina é
disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Estadão
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